Sábado, 11 de Julho de 2009
ASSIM É
"Dizei sim a vós próprios, à vossa pessoa individual, a vosso isolamento, a vossos sentimentos, a vosso destino! Não existe outro caminho. Para onde ele vai, não o sei. Sei, porém, que conduz à vida, à vida verdadeira, ao que é urgente e necessário. Podem alguns achá-lo difícil demais. Podem até preferir tirar-se á vida, este dom oferecido a todos. Pensar nisto não raro faz bem, inclusive a mim. Mas ir de propósito contra esse caminho, por traição ao próprio destino, por apego ao que é normal e comum, isto não podeis fazer. Nem o conseguiríeis por muito tempo. Vosso desespero seria ainda maior do que o atual."
(Hesse)
Quinta-feira, 9 de Julho de 2009
CONCEPÇÃO
De casa ao trabalho, gasto cerca de 30 minutos. Desde o primeiro dia, esforço-me para dedicar esse tempo à leitura. No começo foi difícil, mas hoje dá para levar 05 à 10 páginas, numa leitura agradável e concentrada. Estou na companhia de um Hermann Hesse, adquirido há 2 anos no Sebo do Amadeu, aqui em Belo Horizonte. O livro se chama Para Ler e Pensar. Contém reflexões extraídas da obra do autor de Sidarta e Demien.
Na maior parte das vezes, consigo um assento no ônibus. E a leitura somente é possível se eu estiver sentado. Houve um dia, de tão vidrado que estava, que tentei ler em pé. Nem preciso dizer o que aconteceu... Então, quando a condução se aproxima, apuro as vistas para saber se existe cadeira vazia. Hoje encontrei uma na parte da frente, naqueles bancos de estofado vermelho. Sentei-me e decidi não levantar até à Praça Sete, onde trabalho. Decidi abaixar a cabeça, concentrando-me no Hesse, evitando qualquer um que precisasse do meu lugar, deficientes, grávidas ou idosos.
Não obstante, falhei num ponto do meu propósito. Sempre quando o veículo parava, eu tinha de observar as pessoas entrarem - não sei ao certo por quê, já que estava decidido a não levantar... Na verdade, nunca fui de sentar nas cadeiras vermelhas, acho falta de educação. Só que a vontade de ler me obrigou a isso. E, mesmo desconcentrando-me nas paradas, o fato é que não iria ceder o meu lugar a ninguém, a ninguém!
Faltando 15 minutos para eu chegar ao trabalho, uma mulher grávida entrou no ônibus. Ao vê-la, minha imediata reação foi abaixar os olhos, no intuito de disfarçar o que acabara de ocorrer. Quando a realidade se impôs, repeti para mim mesmo: ora, ela que fique em pé! Tenho que terminar esse trecho, Hesse me diz algo do qual não posso me esquivar, ainda que pudesse, ainda que quisesse...
"Ei, ei, ei moça, moça! Senta aqui!". Nem me dei conta dessas palavras. Sei que fiz um gesto com as mãos indicando o lugar. A grávida sequer agradeceu ou me demonstrou simpatia. Sentou-se e lá ficou com seu mp3. Porém, dentro de mim uma deliciosa sensação de reconhecimento, de experimento tomou forma. Tive de sorrir. É bom demais revelar quem a gente é! Hermann Hesse ficaria contente em saber de alguém assim, tão capaz de compartilhar suas sinceras e pronfudas convicções.
Domingo, 5 de Julho de 2009
NUNCA NAMORE UMA PSICÓLOGA QUE NÃO FUME MACONHA
Estava conversando com um grande amigo. Lá pelas tantas ele me solta esta: "(...) E, se tem uma coisa que eu odeio mais que o cruzeiro, são as psicólogas! Eita raça de bicho ruim! Nunca namore uma psicóloga que não fume maconha! É sério! Nunca!" Eu, que jamais namorei esse tipo de mulher, não pude concordar nem discordar. Mas que a frase do meu amigo é muito bacana, isso é! De todo jeito, pros desavisados que vem ao Abrigo, fica o conselho.
Sábado, 4 de Julho de 2009
ALTERIDADE
A experiência da alteridade é algo muito importante em minha vida. Saber que além de mim existe um universo do qual sou parte, saber que não há somente aquilo que pensei existir, somente minha criação, meu mundo, meus olhos, meu coração, saber isso traz um alívio muito grande. Quando imaginava ser o centro do mundo, o dono de todas as coisas, o senhor do universo, o deus poderoso que poderia, se assim desejasse, fazer qualquer coisa, um enorme fardo pesava sobre minhas costas. Eu construía uma ilusão e, na crença de que isso era a liberdade, ia adiante, atrofiando, contudo, a capacidade de olhar ao redor, a capacidade de aprender com as coisas que existem, que existem antes de mim, sem mim, que vão continuar, ainda que eu morra.
Há uma força surgindo de cada coisa. Especialmente, há uma força numa relação com um ser que se ama. Gostar de alguém capacita, desenvolve a generosidade, aumenta a compreensão. Gostar de alguém simplesmente por gostar, e nada fazer para proteger esse sentimento, não traz o conforto que procuro. Gostar de alguém simplesmente por gostar e fazer de tudo para que isso permaneça, para que não seja atacado pelos monstros da ilusão, é tarefa bonita, é trabalho edificante e gratificante. É bom ver que com o tempo já não é preciso tanto impulso, é fantástico que a gente internalize, realmente aprenda, e com isso vá fazendo o que é preciso sem que seja necessário pensar.
Sei que posso me concentrar e envidar esforços para não perder o foco, o principal objetivo, a coisa maior de todas. Estar vivo e ter a experiência ininterrupta disso, com o susto, o espanto, a alegria, a dor e o medo que vêm junto é o que há de maravilhoso. A angústia, o ódio e o rancor são os demônios que impedem a consumação daquilo que, simplesmente, inocentemente, já é, ainda é, será. Hei de travar esse embate maior, essa luta, agora não mais insana, mas sim compreensível, em favor da vida. Sim, é essa a única conquista verdadeira, a única beleza imaculada, a doce água do rio, a tarde sem propósito, bonita e gigante em si mesma. Esse é o contato com Deus, é a eternidade, o aprendizado maior. Amor.
UMA ORAÇÃO
Moça, traz de volta meu amor pelo mundo. Faz de mim uma imensa e rara poesia. Leva-me para dentro dos seus olhos (apenas em você, somente para você). Porque sozinho não sei.
Porque longe de você também não sei. Mas dentro, quem sabe. Talvez submerso nessa vida que você promete. Oásis, espelhos, pés de amêndoa, chuvas...Todos os sonhos, e seus cenários. Todos os meus sonhos, aquilo que pesa em minhas costas, e também aquilo que me faz leve e ainda acende uma vela numa madrugada de prece: onde há uma mínima fé, um pedaço de mim calado sonhando, solto, num contato absurdo. Moça, se ainda estiver aí, tenha dó de mim e me faça um novo homem.
Sexta-feira, 3 de Julho de 2009
Estive longe de BH. Acabei de voltar. E daqui a pouco tem um show do Caetano. Vou lá conferir. Estive em Barbacena e em Juiz de Fora. Gostei da primeira, gostei muito. Mas Juiz de Fora me casou um certo enjôo...Pareceu-me Montes Claros. Estou feliz por estar de volta.
Quinta-feira, 25 de Junho de 2009
MICHAEL JACKSON
Quando vi a notícia no hotmail, achei que fosse mentira. Fui ao folhaonline e confirmei. A sensação é de estranhamento. O mundo fica um bocado mais estranho. Michael Jackson é uma figura de minha infância e adolescência. Apesar de não ser fã, confesso que estou triste. A foto acima é de um teclado cassio, que vinha acompanhado de um livreto com o Michael na capa. Eu ganhei um desse... Lembro de ter ficado horas e horas imaginando como seria a vida desse cara. Imagino que ele tenha se angustiado muito nesse mundo. Vá em paz, man!
Terça-feira, 23 de Junho de 2009
EM 10/12/2008
CORAÇÃO SELVAGEM (Alterado)
Ah, se eu pudesse aparar
As arestas de minha sensibilidade
Fazer-me tão frio como dizem
Eu seria ao menos mais forte
Ah, se eu pudesse dosar
Apagar de mim o brilho do excesso
Tornar-me tão intenso como dizem
Eu seria ao menos mais firme
Ah, seu eu pudesse doar
Abrir mão de toda mesquinharia
Escrever-me tão gentil como dizem
Eu seria ao menos mais honesto
Ah, se apenas, se apenas,
Pudesse me estender sem roupa
Secar minhas costas numa brisa
Brincar bem perto do fogo
Ir além de todas as falas
Deixar fluir minha língua...
Aí sim, as palavras morreriam
Restaria só um coração selvagem
Domingo, 21 de Junho de 2009
EU CAÇADOR DE MIM

Milton Nascimento é negro. Dois dos meus grandes amigos também. Quando criança, ouvi a história do meu bisavô materno, o Velho Caçula. Ele não permitia que negros passassem pela sala ou comessem na cozinha de sua casa. Nos primeiros dez anos de vida, minha mãe foi criada por seus avós. Imagino que ela tenha se assustado com aquele sujeito racista, brucutu e armado. Entretanto, naquela mesma casa morava Mãe velha, minha bisavó. E todo mundo conta que ela foi a pessoa mais meiga e carinhosa que já pisou nesta terra. Mãe nunca me falou sobre os negros. Contudo falou e ensinou muito sobre o carinho, o amor e o respeito. Disso concluo que meu bisavô não nos transmitiu seu sangue ruim. Foi Mãe Velha quem nos formou. E foi ela que nos salvou o coração da mesquinharia e da burrice. E graças a ela, especialmente, fui ao show do Milton Nascimento ontem à noite.
Cláudio não era negro. Um dia ele me contou que era azul, como os girassóis de Van Gogh. Cláudio foi meu amigo na época da faculdade. Frequentava minha casa e foi quem me deu uma camisinha para que eu não engravidasse minha namorada. Ele dizia ser meu irmão mais velho. Quando fiz 19 anos, presenteou-me com uma fita cassete do Milton Nascimento, de um disco chamado Música do Mundo. Eu adorava essa fita... A segunda música, O que será (à flor da pele), nós a cantaríamos no dia da formatura. Ele seria o Milton e eu, o Chico Buarque. Não foi possível cantarmos juntos. A vida não nos permitiu. Mas ontem, Cláudio, vi seu rosto misturado à voz do Milton Nascimento, tão lindo, sensível e profundo como ela; tão negro, tão azul, tão encantador... Perdi contato com Cláudio depois de um sério desentendimento. Dois anos mais tarde, recebi a notícia de sua morte. Ele pulou da janela do 8º andar de um prédio do centro de Montes Claros. Lembrei de você ontem, meu amigo.
Eu não sei direito qual a minha cor. Já me senti negro, azul, índio, branco...No entanto, ontem à noite, fui apenas um menino. A segunda música que Bituca cantou foi "bola de meia, bola de gude...há um menino, há um moleque morando sempre no meu coração/ toda vez que o adulto fraqueja ele vem pra me dar a mão". A casa de show estava lotada. Eu estava sozinho. Mas não me sentia sozinho. Ao longo da apresentação, meus amigos, minha namorada, minha bisavó, minha mãe estiveram comigo. Confesso que, do meu jeito todo desajeitado, dei alguns passos de dança na arquibancada, dei dois ou três gritos pro Miltão, aplaudi ao final de cada música como ninguém ali o fez. Fui dos últimos a sair, ainda esperançoso de mais um bis. É que desejei ficar por mais tempo; é que ontem mais uma vez compreendi a razão de estar aqui: como na música Modern Dance, do Lou Reed. Ontem a vontade de voltar para casa não veio. Senti uma profunda paz ao perceber que no coração de um menino não há cor nenhuma.
Sábado, 20 de Junho de 2009
SAUDADE
(Em BH, dia 13/06/2009)"...Tira-me a luz dos olhos - continuarei a ver-te
Tapa-me os ouvidos - continuarei a ouvir-te
E, mesmo sem pés, posso caminhar para ti
E, mesmo sem boca, posso chamar por ti.
Arranca-me os braços e tocar-te-ei com o meu coração como se fora com as mãos...
Despedaça-me o coração - e o meu cérebro baterá
E, mesmo que faças do meu cérebro uma fogueira,
Continuarei a trazer-te no meu sangue..."
R.M Rilke
Sexta-feira, 19 de Junho de 2009
USINA DE CINEMA
Há um lugar que vou frequentar aqui em BH. Trata-se de um cinema com quatro ou cinco salas de exibição, de nome Usina Unibanco. Mas eu prefiro chamá-lo de Usina, simplesmente. Fica na Rua Aimorés, bairro Loudes - para quem não sabe, bairro onde fica a sede do Galo; deu até vontade de morar nele por conta disso; mas me disseram que é muito caro. Fui lá a primeira vez em 2006, quando assisti ao Factotum, filme muito bacana baseado no livro homônimo do Buckovski. Também assisti ao Libertino, com Johnny Deep... Mas não quero falar do meu primeiro contato com esse cinema, nem da minha vida naquela época. Quero sim discorrer sobre a relação que hoje estabeleço com ele.
Nem havia me mudado para cá quando o Mendel falou de um documentário para a gente ver, sobre música brasileira e sua relação com a poesia. Compramos nossos ingressos e sentamos num barzinho que fica ao lado para comermos um fígado com cebola, faltavam cinquenta minutos para a sessão começar. Quando entramos na sala me surpreendi por ela estar praticamente lotada. Depois dos trailhers e das enfadonhas propagandas do Itaú/Unibanco, começou a aparecer uma galera super porreta na tela. Adriana Calcanhoto, Chico Buarque, Maria Betânia, Antônio Cícero, e mais alguns, todos falando sobre música, poesia: a relação entre a língua falada e a cantada, o ouvido apurado do sertanejo analfabeto (Tom Zé citando Euclides da Cunha). Não demorou muito e danei a chorar vendo o Lirinha, do Cordel do Fogo Encantado, declamar, como um possesso, a poesia do João Cabral de Melo Neto: O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato/ O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço/ O amor comeu meus cartões de visita, o amor veio e comeu todos os papeis onde eu escrevera meu nome/ O amor comeu minhas roupas, meus lenços e minhas camisas/ O amor comeu metros e metros de gravata/ O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus/ O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos/ O amor comeu minha paz e minha guerra, meu dia e minha noite, meu inverno e meu verão/ Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte". Na verdade me emocionei muitas vezes: vendo Tom Jobim abraçar o Rio de Janeiro; Maria Betânia declamar uma poesia sobre quem escreve cartas de amor; Dorival Caymi empostando sua linda e profunda voz com um singelo violão - Tom Zé o compara à Guimarães Rosa. Enfim, de volta para a casa do Mendel, conversamos muito sobre o Palavra Encantada, e eu dizia ter aprendido sobre mim, sobre meu sangue oralizado, minha música poética, sobre o processo de formação do homem que me torno a cada dia.
Há duas semanas sentei no mesmo barzinho. Pretendia assistir a um filme, retomar o caminho interrompido, de viciado incurável em cinema, como fui num tempo atrás. Mas naquele dia não entrei, fiquei do lado de fora, acompanhado de uma cerveja. Passada uma hora, chegou o Edmundo e logo mais nos batemos com o Redão: a noite foi esticada até bem cedinho. Foi bom ter conversado com os rapazes nesse dia, foi quando saiu a história da "amizade suína" e da "brusca poesia da mulher amada". Mas, desde então, uma fisgada, que aqui chamarei de fisgada do vazio cortante, começou a me incomodar. Percebi, numa tal rua Montes Claros, dias depois, que, na verdade, eu ainda não me libertara da cidade da qual emigrei. Faz quatro dias que cheguei de verdade à Belo Horizonte.
Na quarta-feira à noite fui sozinho à Usina. Nem barzinho, nem cerveja, nem pipoca. Apenas eu e um Hermann Hesse no pátio de espera. Comprei ingresso para ver "A Festa da Menina Morta", mas acabei trocando-o pelo "Sinédoque, Nova York". Outra vez me senti dentro de um labirinto Lynchiano, como na época em que a "Estrada Perdida" me inebriava. Mas hoje há uma grande diferença, aliás, há duas grandes diferenças. Não sou mais guiado por ninguém. E estou construindo a cidade, a grande e fantástica cidade, cheia de cinema e livros, onde vou morar, onde vou descansar, onde vou poder, finalmente, sorrir. Sinto-me muito bem, pensando nisso agora.
Quinta-feira, 18 de Junho de 2009
BATISTA
Há dois dias, desde que deixou seu último "bico", Batista caminha pelo centro da cidade, sem rumo ou propósito; veste uma roupa surrada que está visivelmente suja; sua última comida foi um café com leite acompanhado de um biscoito dormido. Seus 47 anos lhe pesam, e ele anda meio corcunda, alheio a todo movimento e barulho em sua volta. "Não me resta muita coisa, não", pensa, esbarrando-se em pessoas apressadas e sérias. De fato, pouca coisa restou ao Batista, desde que saiu de sua casa, onde vivia com a esposa e a filha.
Ele parou de beber. Estranhamente, largou o álcool no mesmo dia em que foi escorraçado por sua família, sob a acusação de ser "um bêbado inútil e imprestável". Depois de cusparadas, xingamentos e tapas, pegou as peças de roupa de que mais gostava, e foi embora para a rua. No boteco próximo, onde habitualmente senta-se para encher a cara, algo diferente se deu: Quando levou à boca o copo que continha a primeira das dez costumeiras doses, um violento enjôo, uma grande tonteira, tomou-lhe o corpo; o estômago revirou-se como que amassado. Seu corpo rejeitou o álcool como se nunca o tivesse recebido. Ele não entendeu o porquê daquilo, contudo aceitou o que acontecia – se era para parar naquela hora, não tinha importância; que mais lhe importava na vida? A partir desse dia, tornou-se sóbrio, e, não exatamente pela falta de entorpecente, também transformou-se num sujeito taciturno e completamente alheio ao mundo.
Nesta segunda-feira, porém, enquanto caminha em círculos por ruas e praças centrais, uma grave voz vem e lhe sopra ao ouvido. Isso ocorreu quando passava na frente de um lugar imenso, cujas portas estavam abertas e vistosas, um lugar suntuoso e brilhante tal qual um palácio. Trata-se de uma igreja. Uma enorme igreja. De onde brota imponência e esplendor. Por um momento, Batista sente seus olhos arderem ao entender o que a voz lhe diz: "Entra. Entra." Na porta, há dois jovens com roupas limpas e bem alinhadas. Apresentam-se como"obreiros do Senhor" e o convidam para adentrar-se e participar da"poderosa manifestação divina", conforme dizem. Batista aceita o convite e aproxima-se de um monte de gente, reunida e afinada em gritos e frases exaltadas. Imediatamente distingue um homem com um microfone nas mãos, que fala bem alto: "A miséria é coisa de Satanás! A pobreza é obra do Diabo! Deus, o bondoso, quer que tenhamos carros de luxo, iates, apartamentos caros! Somente para os seus eleitos oferece a graça da riqueza! Da prosperidade! Aleluia! Aleluia!"
Batista já está embrenhado no meio da gente. Percebe uma espécie de corredor cujo chão é feito de vidro transparente por baixo do qual há ampliações de notas de dinheiro de todo o mundo: Real, Dólar, Euro. O homem do microfone está quase louco: "Eis aqui o que nos aguarda! Eis aqui a graça de Deus! Basta que nos prostremos e peçamos perdão por nossa alma de pecado e ele nos dará toda a graça, especialmente a prosperidade, a vida de alto nível, o conforto, o reconhecimento dos outros! Deus é o dono do dinheiro e do conforto. E nos concederá tudo isso desde que o adoremos, sejamos fiéis, ofertemos nosso ser e nosso dízimo. É isto! É isto! Aleluia! Aleluia!"
Batista está paralisado e tonto com o que vê. Não lhe é possível ficar alheio ao episódio, não mais. Um grande ódio lhe toma o espírito, um profundo asco rompe sua garganta; algo que jamais sentira, que jamais conhecera, em nenhuma outra situação, faz dele um Leão, um bicho com força e raiva, um tigre faminto, um cão raivoso. "Não é possível!", diz para si. " De tudo que presenciei nestes últimos anos: prostituição, drogas, álcool, nada me causa tanto nojo como isto". Com imensa saudade, lembrou-se do dia no qual acreditou em Deus. Um sentimento começou a tomar-lhe conta: era novamente o amor por Cristo. De seu ódio e asco, repentinamente vieram-lhe clareza e sabedoria. Batista sabia o que fazer. Aquela cena de exaltação do dinheiro, todo aquele hedonismo por dólar, moeda, sonhos de castelos e palácios, abriu-lhe os olhos e coração. O amor e a fúria de Deus apareceram em seu ser, como uma tempestade, um vulcão. Lembrou-se da igreja onde seu pai falava sobre o pecado da ganância e da mentira, onde aprendeu que Deus não é mercadoria, não é dinheiro, não é nada além do amor. Perdoou todos os que lhe desprezaram, cuspiram, ofenderam. Todos. Menos aquele sujeito do microfone. Veio-lhe claramente à cabeça o trecho da bíblia no qual Jesus revira mesas e expulsa mercenários de seu templo.
Nada haveria de impedir o que tinha de ser feito. A certeza e a fúria determinaram seu comportamento. Recuou um pouco, apanhou um pesado banco de madeira, e, com a força de Sansão, levantou-o acima da cabeça. Algumas pessoas perceberam. Fizeram menção de tentar impedi-lo. No entanto, não ousaram diante da chama que envolvia o corpo daquele sujeito de roupa suja e rosto desfigurado0. Tiveram de abrir caminho. Dotado de uma força descomunal, Batista lançou o banco ao chão. O vidro espatifou-se em cacos sobre o dinheiro. Num átimo, as notas incendiaram-se e as pessoas começaram a fugir desesperadas. O homem do microfone ameaçou acompanhá-las. No entanto, parou como um defunto ao ouvir uma voz imensa, grave como um trovão, que saía da boca do Batista: "Pare agora mesmo, Rato! Em minha casa não haverá mais gente como tu. Envergonha-te! Envergonha-te". O rato parou e temeu por seu fim. Recordou-se da passagem da bíblia na qual um homem é aniquilado por Deus ao mentir. O homem recebeu uma grande bofetada na face esquerda. Ficou de lado, com vergonha, chorando, com muito medo. No momento em que as chamas espalhavam-se por todo o "Templo", sirenes e barulhos anunciavam a chegada da polícia e do corpo de bombeiros. Em silêncio, Batista estendeu as mãos para que lhe algemassem. Foi conduzido à uma cela. No terceiro dia de claustro, na manhã em que o guarda foi conferir o estado dos presos, um grande susto tomou conta da cadeia: Batista simplesmente havia desaparecido e em sua cela nenhum sinal de fuga, nada que pudesse explicar o seu sumiço.
Segunda-feira, 15 de Junho de 2009
ESTÁ NA HORA
Foi um final de semana como poucos em minha vida. Está quase na hora de dar o grande passo. Agradeço a todos que gostam de mim de verdade. Sei que são poucos, mas são intensos. Quanto aos outros, os que figem, não me importo com eles.
Segunda-feira, 8 de Junho de 2009
O FURACÃO VIROU UMA BRISA
O título acima é uma frase que o Black soltou enquanto assistíamos ao Galo bicar e fazer sangrar impiedosamente o Atlético do Paraná, que noutros tempos já foi chamado de o "furacão da baixada".
(foto retirada do site da uai: Galo 4x0 Atlético Paranaense)Quem me conhece talvez estranhe que eu diga isso. Sou dos torcedores mais crentes que o Galo possui. Na maior parte das vezes acredito até lá pela metade da competição, chegando a dizer que o Galo vai reagir e que chegará ao menos à Libertadores.
Mas os tempos são outros. Tantos os meus como os do Galo. Eu já não sou tão pessimista ou otimista como outrora. E o Galo há muito não chega nem perto daquele timaço da década de 1980. Para ambos os casos há explicação: tenho andado menos eufórico... quem sabe da euforia e a sente em sua maior intensidade, quando o otimismo brilha e ilumina quem estiver perto, também sabe como é o "day after": horrível; e com ele, com o "day after", vem o pessimismo cortante. Por seu turno, o Galo tem sido vítima de dirigentes cafajestes e inescrupulosos há, pelo menos, 15 anos. Foram sujeitinhos acobertados por padrinhos obtusos, que miravam sempre a projeção política sobre a majestosa torcida alvi-negra, a fim de lograrem êxito em campanhas eleitorais...
Devo admitir que a chegada do Celso Roth não me foi alvissareira . No entanto, depois da quinta-feira e do sábado à noite, quando ouvi o Redão tecer comentários que me pareceram pertinentes sobre esse técnico, resolvi dar uma chance. O Leão vacilou feio contra os Smurfs. Foi por causa dele que o Galo levou um chocolate das moças. E olha que sempre fui admirador do Leão no Galo, achava que ele tinha o perfil de nos levar à conquista de mais um brasileirão...Há a possibilidade de eu ter me enganado. Pois, ao que parece, os tempos mudaram para ele também.
Mesmo que não dê para avaliar nosso time com precisão, o fato é que pude ver os jogadores do Atlético dominarem a bola, acertar os passes, tocando com desenvoltura, marcar bem, fazer triangulações. Soma-se a isso a providência, adotada com muita lerdeza, de mandar o Edson e Juninho para longe do nosso manto manto sagrado número 1. O Aranha injeta segurança à zaga, tem moral com o time todo, e, acima de tudo, sabe fazer o que qualquer goleiro que tenha a pretensão de jogar futebol deve fazer: pegar no gol.
Domingo agora tem jogo contra o Náutico no Mineirão. Estou muito a fim de ir ver. Será, essa sim, uma boa oportunidade de diagnosticar o futebol do Galo. E será, sendo este sem dúvida o principal motivo de eu querer ir, mais uma oportunidade de ver aqueles irmãos malucos, de espora e garganta afiadas, cantar que o Galo é o time do amor.
NATÁLIA
Às vezes fico olhando meu e-mail, procurando textos que escrevo desde 2006. Sempre busquei encontrar a forma mais eficaz de expressar o que eu sentia. Lembro bem de quando comecei a escrever...Eram poemas que em sua maioria não me revelevam nada de interessante. Aos poucos, adquiri alguma habilidade em, pelo menos, dizer a verdade. E isso me deixa contente.
Encontrei a Natália no Gmail e decidi postá-la novamente. São cinco e meia desta manhã de segunda-feira. Logo mais estarei no trabalho, recomeçando minha vida por aqui, em BH. Natália tem a ver com BH.
NATÁLIA
(18/09/2007)
Como dedicatória, em cada livro estava escrito: " Sou um cara bonito, bacana, inteligente, e só lhe ofereço este presente porque quero me casar com você, ou ao menos lhe comer". Não sei de onde lhe viera a idéia de que as mulheres não resistiriam a uma proposta tão direta, à uma frase tão incomum e "espirituosa". Mas o fato é que algumas realmente iam na dele e realizavam parte de seu desejo. Com a Ana, com a Mônica, com a Angélica, por exemplo, aconteceu assim. Elas adoraram o tom da dedicatória, e levando em conta um certo charme do rapaz, despiram-se e foram penetradas sob agradáveis noites em carro, motéis ou na rua. Contudo, nenhuma delas quis ir além, nenhuma entendeu o seu principal objetivo, de onde concluiu que talvez todas fossem iguais, e que jamais lhe seria concedida a graça do matrimônio. Ele andava triste por conta disso. Lamentava-se em botecos, no trabalho, e às vezes até chorava no colo da mãe. Sua esperança agonizava. Chegou até a pensar em suicídio. Nada sério, porém. Depois de analisar direito e constatar que o mundo era muito maior do que as desilusões experimentadas, decidiu tentar de novo e de novo e de novo. Convenceu-se de que melhor seria continuar vivo do que lançar-se prédio abaixo ou afogar-se com pedras amarradas nos calcanhares.
Certa noite, num bar do centro da cidade, enquanto discorria veementemente sobre sua necessidade matrimonial, uma mulher, aparentemente vinda de lugar nenhum, aproximou-se e lhe cumprimentou com um irresistível piscar de olhos e com um sutil porém excitante mover de língua nos lábios. A moça era extremamente bela e parecia conter em si características de distintas mulheres: pele morena e seios fartos qual uma espanhola, olhos pretos e amaneirados como uma mineira, plena sinceridade e sorriso solto de uma baiana... O rapaz, que não era do tipo desprevenido, imediatamente sacou um dos livros que levara consigo: A noite na Taverna, do Álvares de Azevêdo. Não era de se estranhar que a escolha recaísse sobre tão obscura novela. Há três anos, por exemplo, dera de presente a uma secretária o Eu, poemas do Augusto dos Anjos; noutra feita, concedera a uma médica o Breviário de Decomposição, do Cioran; mês passado fora o Anticristo, do Nietzsche. Tanto seus presentes como sua dedicatória eram uma extensão de sua peculiar personalidade, de sua singular forma de tratar as mulheres.
Depois de a moça receber o livro e olhar nos olhos do rapaz, comentou com sarcasmo: "Em primeiro lugar, meu verdadeiro nome é Natália. Não dou qualquer importância ao casamento. E se de vez em quando pratico a luxúria, é apenas para gozar no meu corpo, e rir da cara de homens como você". Ela não hesitou em rasgar as páginas do livro na frente dele, no compasso de um estridente e demoníaco sorriso. Diante dessas palavras e ações inusitadas, algo de fundamental aconteceu ao rapaz, e ele sentiu um extraordinário arrepio em todo o corpo; o coração dava cambalhotas e ao mesmo tempo chorava dentro de seu peito. Havia encontrado o que tanto procurara. Enfim sua busca tinha chegado ao termo, e seus sonhos, ao paraíso. Ele apaixonava-se terrível e mortalmente à medida que a Natália prosseguia: "Eu sei como você é. Sei como se comporta a espécie de homens da qual você faz parte. Preste atenção, moço: Eu não me enquadro em nenhuma casta de mulher. Eu sou a mulher, compreende? Eu sou todas as mulheres, tenho tudo que preciso, tudo que as outras querem, tudo o que os homens procuram. Eu sou a Natália. Não tenho medo de nada. Posso fazer de qualquer homem um rei, um facínora ou um mendigo. Sei de tudo. Mas quanto a você, ainda não decidi o que fazer".
Nesse momento o rapaz já não sabia de si. Não tinha mais nada que lhe chamasse a atenção. Somente a mulher, somente ela. E ele se ajoelhou, como um miserável pecador, e com as mãos erguidas suplicou à Natália que fizesse qualquer coisa, qualquer uma, pois não havia mais escolha, ele já lhe pertencia para sempre. Toda a gente do bar parou para olhar aquela cena tão exótica. Mas ele não se importava. Depois de tanto tempo e de tantas tentativas, havia chegado o dia, o seu dia, o dia do seu encontro. Natália continuava sorrindo. No entanto, na sua face morena, um traço de carinho demonstrou que ela havia decidido o que fazer: "Começo a gostar de você. É lindo vê-lo dessa forma, tão inocente e perdido. Minha compaixão faz com que eu lhe conceda uma ajuda. Vou lhe ajudar, menino carente, vou lhe dar tudo o que sempre sonhou, e sua tortura acabará, você será intensa e inimaginavelmente feliz por um breve momento. Não obstante, devo lhe dizer que somente por uma noite é que serei sua. O conforto que lhe darei será a minha imortalidade em seu sono". O moço estava trêmulo. Não conseguia dizer absolutamente nada. Fora por ela, fora por esta mulher que percorrera todos os corpos possíveis. E eis que num bar qualquer, diante de bêbados e boêmios perdidos, ele sente a cruel paixão da vida; vê com os próprios olhos a síntese do feminino, a mãe, da mãe, da mãe, de sua mãe, a fêmea primeira e fundamental.
Foi a mulher quem o chamou para saírem daquele lugar. Ao que ele simplesmente obedeceu. Todo o bar observou enquanto os dois caminharam abraçados pela rua. No dia seguinte, o assunto do botequim foi a impressão que tiveram quanto ao abraço: era como se a moça tivesse tomado completamente o rapaz, e o envolvesse de tal modo, que nenhuma outra coisa existiu no mundo além daquilo.
Pararam num lugar não muito distante. Entraram num prédio velho e sem elevador. Subiram três pedaços de escada e enfim chegaram, chegaram à casa de Natália. Havia pouca coisa naquele pequeno apartamento de sala, cozinha e quarto. A mobília era constituída de uma cadeira de balanço (daquelas bem antigas), três quadros abstratos na parede e de uma bonita cama de casal com lençóis vermelhos. No entanto, o moço não prestou atenção em quase nada. Do objeto em cima da cadeira, seus olhos passaram longe. Ele apenas seguiu a mulher na direção do quarto. Ela lhe disse para se deitar, enquanto retirava toda a roupa; realmente era como uma linda espanhola; verdadeiramente parecia que todas as mulheres moravam ali naquele corpo, especialmente as mais bonitas e sensuais. O rapaz permaneceu deitado, enquanto ela fez todo o trabalho noite adentro: foram gemidos bestiais, gozos descontrolados, sensações divinas e infernais; por mais de três horas ele sentiu todo o mundo num canto só; sua alma parecia dizer que o destino estava cumprido, que tudo o que tinha de ser feito aconteceu. Ao final do amor, de cansado ele adormeceu, sonhou, gozou de novo envolvto em imagens e gemidos, e foi despertado com uma doce voz dizendo-lhe ao ouvido: "É chegada a hora, meu homem".
Ele abriu os olhos, e preguiçosamente atendeu à moça, que lhe disse para ir para a sala. O rapaz estava nu, e ainda não havia acordado por completo. A mulher vestia uma camisola da cor da pele, o que dava a impressão de também estar nua. Ele olhou com todo o seu coração para aquele negro cabelo e para aqueles grandes lábios vermelhos, que lentamente balbuciaram uma frase...O rapaz pensou em desistir, mas logo se lembrou da sentença: "apenas por uma noite e para sempre no seu sono". Um outro arrepio, agora muito mais sombrio e violento, lhe assaltou o coração. Era a sua despedida. Mansamente, como um cão obediente, que abocanha um pedaço de carne podre, ele caminhou até a cadeira, abaixou-se e catou o objeto, conforme a ordem que recebera. Uma lágrima lhe feriu o rosto. Ele fechou os olhos e respirou profundamente. O revólver caiu no chão no exato momento em que a moça passava o batom vermelho na boca, arrumando-se para ir embora. Segundos depois, ela passou sem olhar para baixo, deixou a porta aberta, desceu as escadas e desapareceu na rua.
Sexta-feira, 5 de Junho de 2009
SUINOCULTURA
Ontem foi uma noite muito bacana. Saí para conversar com o Redão e com o Dr. Ed. Houve momentos de pura emoção na mesa, com reconhecimentos de amizade e juras de trabalhos a serem feitos. Cogitamos montar um Sarau poético por essas bandas... Acho que essa idéia foi inspirada na "brusca poesia da mulher amada", do Vinícius de Moraes, declamada pelo Doutor no meio do bar em que estávamos. Foi muito engraçado. Edmundo, sob veementes protestos do Redão, que afirmou ser aquela a vigésima sétima vez que passava por tal constrangimento, começou, com seu super Gudan sabor menta e sua voz de vinte mil cervejas: Minha mãe, alisa de minha fronte todas as cicatrizes do passado/ Minha irmã, conta-me histórias da infância em que que eu haja sido herói sem mácula...
No entanto a parte mais marcante da noite foi a retomada da nossa discussão sobre os porcos. É que não comer carne de porco tornou-se assunto entre meus amigos desde o dia em que o Mendel leu um adesivo na traseira de um carro: "Porcos são amigos, não comida!" Desde então o Black tem demonstrado enorme resistência até com Pizza, por causa do presunto. Também entre mim e a Luciana, minha namorada, o assunto dos porcos está rendendo. Ela afirmou não ser muito chegada nesses bichos. Disse preferir carne de boi porque os bois não são porcos - o que é absolutamente verdade, não tive como discordar. Agora, a tirada mais sensacional sobre o assunto veio do Dr. Ed. Perguntei-lhe se acompanharia o Black na preservação dos nossos amigos suínos. Ed cofiou a barba, e no seu inigualável estilo de expressar, soltou essa: "Bicho, sei que o Mendel leu que os porcos são amigos e não comida. Estou inclusive refletindo seriamente sobre isso. E a minha conclusão é de que eles são mesmo nossos amigos. Só que no meu caso trata-se de uma amizade colorida. Do tipo, se eles derem bobeira, mando bala, como sem dó". Genial.
Quinta-feira, 4 de Junho de 2009
A CHEGADA
Soube há pouco por telefone, através do meu cunhado, que hoje faz muito frio em BH: 10º C. Mais cedo, às 17: 00h, quando, depois de passar meio dia na estrada, tendo acordado de madrugada, não resisti e caí na cama, tive de me embrulhar com meu cobertor. No entanto, nem de longe, senti o frio informado ao telefone. É provável que não o senti por causa da, vou assim chamar, calorosa recepção que tive desta cidade e do meu irmão e anfitrião BlackMendel.
Cheguei por volta das 11:00h da manhã, com o resto das minhas poucas coisas da mudança. Já havia trazido os livros, os discos e um dos violões. Hoje trouxe o restante, sapatos, minha chuteira, o violão preto, roupa de cama. Logo ao entrar nesta casa, da qual me sinto familiar, pois por aqui já estive dois meses em 2006, fui saudado com um brinde de um fortíssimo café preparado pelo Black. A princípio brindamos pela chegada do grande Navio, como descrito na música do Bob Dylan. Depois, fizemos um brinde inusitado para mim, e também para o Mendel. Ele mencionou que há dias desejava brindar pela liberdade. Dito e feito: À liberdade!
BH se apresenta como um rumo para minha vida. Estou ciente das muitas ilusões e desencontros que, mais do que fora, se encontram dentro de nós mesmos. Mas também sei, e sobretudo sinto, que não devemos morrer se não conseguimos curar nosso espírito com a força do pensamento. Quando um pedaço do corpo está doente, e a medicina fracassa na tentativa de curá-lo, é preciso arrancar, jogar fora, amputar, cortar. Montes Claros significa isso para mim. Espero que algum dia eu venha a perdoá-la e a me perdoar por cada sonho morto em casas, hotéis e noitadas. Afinal, as cidades estão dentro da gente. Minha tristeza maior poderia ter vindo à tona em São Paulo, San Petersburgo, New York, ou, até mesmo, em Belo Horizonte. Em breve o perdão virá, estou certo disso.
Enfim, estou aqui. São vinte para uma da manhã. O Abrigo volta a ser escrito na madrugada. Estou entusiasmado - certa vez, um amigo me explicou que "entusiasmar-se" significa encher-se de amor, de amor... Creio que esse entusiasmo, aliado à minha sensibilidade e intuição, me levará ao encontro do tal amor mencionado no último texto. Estou disposto a assumir um compromisso muito sério. Estou disposto a tornar-me mais sério do que o Dylan e o Cohen juntos. Como disse à minha namorada, meu equilíbrio se encontra na intensidade. Entusiasmo-me porque não se trata mais da intensidade "decadente" que cultivei em Montes Claros. Sinto-me contente porque pretendo intensificar meu poder de amar, de ser verdadeiro e acima de tudo honesto comigo e com as pessoas que amo. Belo Horizonte recebeu hoje um sujeito muito bacana que, acima de tudo, pretende viver da beleza e do encontro do amor que há dentro dele. Estou pronto!
Quarta-feira, 3 de Junho de 2009
Terça-feira, 26 de Maio de 2009
AMOR DE SALVAÇÃO
Durante muito tempo acreditei que o amor de outra pessoa pudesse me salvar. Talvez por causa da enorme dedicação que minha mãe teve por mim, talvez por causa de algum obscurantismo pessoal, acreditei que viriam anjos em forma de pessoas e que eles me levariam embora, ao encontro da minha felicidade.
Experiência de amor com outra pessoa é das coisas mais fantásticas que posso sentir neste mundo. Submergir numa paixão, sentir o roçar de uma pele macia no meu corpo, sorrir ao acaso, fazer brincadeiras infantis, tudo isso, sem dúvida, proporciona uma sensação de prazer difícil de se achar por aí. Ainda que me considere jovem e de certa forma iminente em alguns aspectos da vida, a verdade é que já experimentei um bocado de amor. Amor de entrega, amor de ajuda, amor de sexo, amor de silêncio, de confissão, de abrigo, com saudade, com ciúme; amor de pai, filho, mulher... amor de briga, raiva, tumulto...amor de compreensão, apego, superação. No entanto, jamais experimentei amor de salvação.
Acho que existe um livro com esse nome "Amor de Salvação". Não sei do que ele trata. Mas imagino que não tenha o mesmo significado que desejo atribuir a esse amor. Lembro que num texto meu, sobre o cuidado, mencionei que ninguém salva ninguém. Nada mais certo e, talvez, nada mais justo do que isso, do que essa constatação. A salvação jamais virá de fora, ainda que haja a melhor das intenções.
Também Deus e o seu amor, no sentido em que os concebo, são, na realidade, irmãos siameses daquilo que acredito ser a rocha fundamental de minha vida: o encontro com a minha verdade. A vontade e a consumação desse encontro é o que chamo de amor de salvação.
E é esse amor, apenas ele, o autor da minha verdade, nela compreendida a leveza, o pensamento fértil, a poesia rara, o mundo em construção. Para mim, a satisfação de se estar vivo e a cura do espírito decadente vem desse amor, desse impulso rumo ao todo, à experiência da plenitude. E essa compreensão jamais virá de outra pessoa. Transfusão de sonho ou transplante de espírito só existem no delírio. E é preciso saber que o delírio, ao contrário do que se imagina, não é o primata da poesia. A poesia é filha do amor de salvação. E é por isso que até hoje não consegui escrever o meu poema. Mas sinto que ele vem vindo, e seus passos são largos, posso sentir o arrepio do corpo ao perceber os seus primeiros movimentos.
Não posso negar o valor da experiência de amor com outra pessoa. Não estou mais leviano a este ponto. Preciso sim do amor da minha família, dos meus amigos, da minha mulher. Trata-se de uma magia que a vida me oferece, uma maravilha que toca e embala meu coração. No entanto, essa magia não encanta aquele canto íntimo onde só nós mesmos (e Deus) podemos atingir. Não oferece a razão, o entusiasmo e o sentido que proporciona o prazer de respirar, de estar vivo. Somente o amor de salvação, cuja fonte se encontra no último fio das minhas entranhas, é que pode me levar adiante, a olhar o mundo sem sentir vergonha do que eu sou, a levantar a cabeça e dizer: Aqui é o meu lugar! E neste lugar construirei minha casa, meu sonho e meu mundo!
Sábado, 23 de Maio de 2009
HORIZONTES
Faz frio em Montes Claros. Cheguei de Candiba há dois dias. Estou apenas de passagem por aqui. Em breve Belo Horizonte me abrigará. Estarei na casa de um irmão, e logo pretendo ter o meu próprio lugar. Tenho excelentes expectativas. Acredito que, enfim, poderei desenvolver minha capacidade num ponto que me deixe satisfeito. É chegada a minha hora.
Nesses dias de silêncio, ouvi algumas coisas. Numa situação estranha, ouvi de um rapaz que seria muito bom escrever um livro. Ele disse imaginar o quanto de satisfação em abraçar um bloco encapado de papel escrito por ele, seria algo como um patrimônio, uma coisa a se tocar, beijar, abraçar. Quando falou assim, lembrei-me do Rilke, que diz algo semelhante. É que às vezes a gente escreve para conseguir a aprovação dos outros, para agradar alguém. Nesses casos, a insegurança é inevitável. Sofremos com o medo de que nos digam que o que fazemos é ruim, que não merece ser publicado. Rilke, em suas cartas a um jovem poeta, faz um pedido: para que o artista volte para dentro de si mesmo sua atenção e pare de procurar no mundo exterior respostas que apenas podem ser reveladas no profundo do seu ser. Quando o rapaz me demonstrava com os braços - ele fazia o gesto de quem pega um livro e leva-o ao peito -, senti uma vontade enorme de ter algo meu, somente meu. Não um livro, talvez. Mas algo no qual esteja marcada a minha personalidade, meu jeito de ver o mundo, de sentir as coisas. Sei que há textos neste abrigo que contêm muito de mim. No entanto, sei que posso mais, que posso me soltar adiante de quaisquer amarras que existam em mim.
Tive uma breve conversa com a namorada de um amigo meu. Ela me confessava ser leitora do abrigo. E disse que não acreditava que minha vida fosse tão "melancólica" como aqui é exposta. Ela me aconselhou coisas como tomar um banho de sal grosso, fazer um despacho de macumba para me livrar da má influência. Ela me disse haver chorado num texto meu. Perguntei-lhe se se lembrava de qual. Ela disse que não, e continuamos a conversa.
Devo admitir que opinões como essas, noutro tempo, me levariam ao fracasso psicológico. Não que ela estivesse de má-fé ou quisesse me ferir. Pelo contrário, vi que suas palavras eram "do bem", que, de algum modo, ela queria me dar um toque, me ajudar. Inclusive, houve algo que ela disse e que me valerá muito: que minha vida em BH será desenhada conforme minha vontade de potência, meu desejo de fazer algo importante para mim. Mas a questão é que quase sempre me deixei levar por qualquer coisa que me ferisse. E aquela conversa, especialmente na parte da "melancolia", teria capacidade de me prostrar. Mas não foi o que ocorreu. Eu apenas ouvi e conversei com uma pessoa que pensa de uma forma diferente. Nada mais comum neste mundo, que pessoas tenham visões diferentes. E eu não preciso agradá-las, somente respeitá-las.
Minha vida está tomando um novo rumo. Do meu lado à noite, na cama, deixo um livro que me traz paz. Estou com a Bíblia do lado do meu colchão. Andei lendo o Salmista do qual um dia desdenhei diante do meu pai. Tenho feito orações sempre que me lembro. Descobri, em Candiba, na casa do meu pai, a forma de me manter em pé, com a mente sadia e com coragem o espírito.
Vejo coisas importantes acontecerem: Sofia torna-se, cada vez mais, uma linda criança: íntegra, sonhadora, brincalhona, traquinas, dócil. Meu pai está numa ótima fase de sua vida. Minha irmã, minha sobrinha e Paulinho estão bem. Meus amigos, Niva, Black, Lekso... estão achando seus caminhos. Tenho uma linda namorada. E, acima de tudo, tenho aprendido a me amar, a cuidar de mim e a querer da vida o máximo que ela pode me dar.
Quarta-feira, 6 de Maio de 2009
CHICO BUARQUE
Andei ouvindo Chico nesses dias. Fazia tempo que ele não tocava por aqui. Cismei de, finalmente, saber se ele e eu somos próximos. Escutei o CD Vida umas três vezes. Percebi que ainda gosto dele, do Chico. É bom reencontrar algumas sensações perdidas, relembrar de minhas viagens à candiba, nais quais o toca-fitas de Ivan (o terrível) mandava "Sem Fantasia" ou um "Vai Passar" sem dó do ouvido de ninguém.
Lembro muito do quanto ia fundo o "Apesar de você"... Acho que já dediquei esse verso a um monte de gente: "Apesar de você, amanhã há de ser..."
Então vai aí "Apesar de você". Mas gostaria que esta música fosse vista como uma profecia, algo como o prometido navio do Bob Dylan. Chico e Bob tem lá suas semelhanças...
Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão, não.
A minha gente hoje anda
Falando de lado e olhando pro chão.
Viu?
Você que inventou esse Estado
Inventou de inventar
Toda escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar o perdão.
Apesar de você amanhã há de ser outro dia.
Eu pergunto a você onde vai se esconder
Da enorme euforia? Como vai proibir
Quando o galo insistir em cantar?
Água nova brotando
E a gente se amando sem parar.
Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros. Juro!
Todo esse amor reprimido,
Esse grito contido,
Esse samba no escuro.
Você que inventou a tristeza
Ora tenha a finezade “desinventar”.
Você vai pagar, e é dobrado,
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar.
Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Ainda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria.
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença.
E eu vou morrer de rir
E esse dia há de vir antes do que você pensa.
Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia.
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear, de repente,
Impunemente?
Como vai abafar
Nosso coro a cantar,
Na sua frente.Apesar de você
Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Você vai se dar mal, etc e tal,
La, laiá, la laiá, la laiá…….
Sexta-feira, 1 de Maio de 2009
ABRIL ACABOU
Então, quem me conhece sabe que não gosto de ficar calado. Pelo menos não no blog. É que - compreendi depois - Abril representa algo ruim que ainda não desapareceu. Foi em Abril, no dia 20, que minha mãe morreu. Acho que até hoje isso me faz mal.
Mas acabou, passou. E estou aqui novamente. E estou disposto a retomar meu caminho. Não que eu tenha me perdido dele. Não, não foi isso. É como se eu tivesse adormecido, durante muitos dias. Mas não estou mais entre os que dormem. Estou aqui, e com vontade de ir adiante.
Não gosto de ficar parado. Há em mim um desejo enorme de mexer nas coisas, de aprender, de cantar, de escrever, de amar. Abril foi ruim porque parei um pouco. Mas, como disse a um amigo, a questão é não se preocupar com isso. Talvez faça parte do processo. Talvez hoje meu discernimento seja maior e minha honestidade mais profunda. Peço a Deus que assim seja, que não seja em vão meses negros ou afastamentos, que representem, isso sim, fortalecimento, aumento de perspicácia, expansão do amor.
Estou com saudade da minha família e de meus amigos de BH. Mas não se trata de uma saudade que sufoca, mas sim de algo bom, com a consciência de que em breve tudo será mais próximo. Ontem à noite a Lu, minha linda menina, falou algo sobre ir longe e estar perto. Na hora lembrei-me do nome daquele filme: tão longe e tão perto. É do Wim Wenders, acho que Mendel o assistiu. É isso mesmo. BH, cuja ida está definida, me levará para bem longe, e, paradoxalmente, me trará para mais perto de tudo que amo: minha família, minha namorada, meus amigos. É essa a minha expectativa.
Vou postar uma foto que o JJ tirou de mim no serviço. É pra ficar registrado: são meus últimos dias naquele prédio. Vou sim sentir saudades de algumas coisas. Só não vou sentir saudade da forma como as coisas são conduzidas. Não que eu acredite que BH será radicalmente diferente. Não, não é isso. Mas é que estou com muita sede... E sinto que esta sede mexerá com minha vida nos próximos dois anos. Não vou evitar o inevitável. Sou intenso e pronto. Que venha o grande navio!
Tenho algumas idéias de texto aparecendo na cabeça: umas velhas e outras de agora, digo, de ontem para cá. Estou sem Internet e, diante disso, tenho que tirar a poeira e as teias de aranha da minha máquina de escrever; meu notebook só me serve, e espero que assim seja por muitos anos, como máquina de escrever, e por isso ele anda desligado, num canto. Tenho de aprender a amar a escrita sem objetivo imediato, de publicação no abrigo. Amar a escrita do começo da noite e de uma manhã bacana qualquer. Somente assim é que faço meu próprio sonho.
É isso. "Peter is back!"
Segunda-feira, 27 de Abril de 2009
Sexta-feira, 24 de Abril de 2009
OLHA O QUE EU ACHEI!
Esta é a minha irmã. No vídeo ela está na roça do nosso pai, fazenda Arrogante, no retiro espiritual de 2009. Eu estava lá também. E aqueles dias foram muito bacanas. Observem que atrás de minha irmã tem um Gol verde. É o super "Ivan, o terrível", meu primeiro carro. Foi com Ivan que me tornei este motorista fabuloso que sou hoje (rs). É muito bom ver isso.
Quinta-feira, 23 de Abril de 2009
Quarta-feira, 22 de Abril de 2009
SANTO AGOSTINHO
Incomoda-me não estar escrevendo. Em breve isso será resolvido, assim eu acredito. Nesse trânsito a concentração está difícil, os dias são como promessas e contêm uma leveza que embaraça. Não é muito agradável deixar escapar das mãos o que ocorre. Viver uma promessa me deixa um tanto confuso, embora eu saiba que a leveza é algo extraordinário. O problema é que não estou consciente. É como se estivesse trôpego, com a cabeça rodando o tempo inteiro, sem poder me sentar e abrir um livro para ler. Acho que a promessa tem a ver com isso, e meus dias tem sido assim, tão embriagadores, tão estranhos, tão malucos.
Sinto que está vindo, nesse invólucro de embriaguez, a minha fé primeira. Está vindo o que me falta. Meus nervos sabem disso. E também minha pele. Quando não é mais possível mentir para si mesmo, não se pode enganar a própria pele. Eu estou aqui. Eu espero você.
Sábado, 18 de Abril de 2009
NINA SIMONE
É tempo de silêncio. Não sei se estou apenas de mundança. Algo me diz que estou, na verdade, em mudança. Sinto-me quieto, mais atento, menos perdido. Sinto-me bem.
Entendo muito do que me foi ininteligível. Vejo, sereno, tumultos fora de mim. Não gosto do Peter Doherty, assim como não gosto do Papa Bento XVI. Eu passei disso.
Coisas fantásticas acontecem nesses dias. É como se me fosse recuperada a capacidade de encantamento. Isso mesmo. Situações, músicas, cores.... Sinto-me esquisito. Mas sinto-me feliz.
Não sou nada além disso.
É o que ecoa em minha mente... Não sou nada além disso...
Terça-feira, 14 de Abril de 2009
I'll BE YOUR MIRROR
É porque estou apaixonado:
I'll Be Your Mirror
Eu serei seu espelho
Refletirei o que você é, caso você não saiba
Eu serei seu vento, a chuva e seu pôr-do-sol
A Luz na sua porta pra ver quando você está em casa
Quando você pensar que a noite lê sua mente
Que dentro de você está cruelmente revirado
Deixe-me esperar pra ver que você esta cega
Por favor.. abaixe a suas mãos
Porque eu vejo você
Eu acho difícil acreditar que você não saiba
O quão bela você é
Mas se você me deixasse ser seus olhos
Uma luz em sua escuridão, então você não teria medo
Quando você pensar que a noite lê sua mente
Que dentro de você está cruelmente revirado
Deixe-me esperar pra ver que você esta cega
Por favor.. abaixe a suas mãos
Porque eu vejo você
Eu serei seu espelho
(Velvet Underground)








